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Quem Pertence ao Povo da “Verdade Presente”?

Quem Pertence ao Povo da “Verdade Presente”?

Verdade presente. Substantivo tão comum nos círculos adventistas. Expressão rotineiramente encontrada nos escritos de Ellen White. Conceito indicativo de uma mensagem pura e destinada especialmente àqueles que vivem no tempo do fim. E, por esses e outros motivos, é comum ouvir adventistas designando a si mesmos, ou grupos dentro da igreja, como pertencendo à verdade presente. Mas, afinal de contas, o que significa “verdade presente”?

O termo é utilizado apenas uma vez na Bíblia (2 Pedro 1:12) e “sugere uma verdade que é peculiarmente apropriada na atual situação histórica”.[i] Tiago White dizia que “nos dias de Pedro havia uma verdade presente, ou, verdade aplicável àquela época”.[ii] Assim como esse pioneiro, se você é um leitor interessado, perceberá que as Escrituras apresentam uma verdade específica para cada período da história sagrada.

No Jardim do Éden, a ordem era não comer a fruta de uma determinada árvore. Nos dias de Noé, os homens deveriam construir uma arca e se refugiarem dentro dela. Já no caso da Torre de Babel, a ordem foi inversa: os homens deveriam se espalhar sobre a face da terra, e não se ajuntarem num único lugar apenas. Abraão recebeu a orientação para sair da sua cidade e ir morar em Canaã, assim como Moisés também deveria abandonar o Egito e liderar o povo até Canaã. Josué recebeu o encargo de conquistar a terra de Canaã e exterminar os moradores daquela região.

Avançando no tempo, vemos que a verdade pregada por Jeremias era a submissão ao rei de Babilônia. E, uma vez que os judeus foram para o cativeiro, deveriam construir casas e plantar vinhas em Babilônia. Mas, quando chega a vez de Esdras e Neemias, a verdade daquela época consistia em abandonar Babilônia e reconstruir Jerusalém. Jeremias também advertiu os que ficaram em Jerusalém para não descerem ao Egito. Mas, curiosamente, um anjo advertiu José e Maria a fugirem para o Egito.

Nos dias do Novo Testamento, a verdade presente era reconhecer que Jesus era o próprio Deus e que nEle se cumpriram todas as profecias do Antigo Testamento referentes ao Messias. Nessa época, a pregação da verdade também consistia numa transição de sistemas, onde o santuário terrestre e suas cerimônias deixaram de ter sua relevância, sendo introduzida nova esperança por meio do santuário celestial.

Logo, vemos claramente que, em cada período da história humana, o povo de Deus possuía verdades específicas para proclamar, de acordo com as necessidades de cada tempo. A mesma dinâmica se repetiu no período da igreja primitiva e perdurou durante toda a idade média. É por isso que quando chegamos nos dias de Lutero, a verdade específica para aquele século era diferente da verdade presente dos dias de Jeremias ou dos apóstolos. Lutero tinha de promover uma verdade peculiar, e essa não consistia em construir uma arca ou abandonar sua cidade natal e se mudar para a terra de Canaã.

Vejamos o que Ellen White escreve a esse respeito:

Havia uma verdade presente nos dias de Lutero — verdade de especial importância naquele tempo; há uma verdade presente para a igreja hoje. Aquele que todas as coisas faz segundo o conselho de Sua vontade, foi servido colocar os homens em circunstâncias várias, e ordenar-lhes deveres peculiares aos tempos em que vivem e às condições sob as quais são postos.—O Grande Conflito, p. 143.

A compreensão da verdade não é estática, porém, dinâmica. A verdade é absoluta, porem a revelação e compreensão da verdade é progressiva. É por isso que ela é chamada de verdade presente. Verdade presente significa uma verdade especial para aquele tempo presente, para aquele momento específico. Verdade presente é um conjunto de crenças peculiares necessárias para um determinado grupo de pessoas em um determinado tempo e sob condições específicas.

Após Lutero, diversos outros reformadores e movimentos também reestabeleceram verdades importantes. Os anabatistas resgataram a prática do batismo em fase adulta. Os metodistas destacaram a importância da santificação. Os batistas do sétimo dia demonstraram a importância da guarda do sábado. Os milleritas exaltaram o estudo das profecias sobre o fim dos tempos e o pré-milenismo. Porém, foi apenas depois do desapontamento de 1844 que surgiu um grupo capaz de reunir todas essas verdades em um só movimento: Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Entretanto, logo após o desapontamento, os adventistas sabatistas eram um grupo disperso e desorganizado. Não possuíam um corpo de crenças sistematizadas. Não estavam unidos em torno de uma causa única. Foi por isso que, em 1848, Ellen White recebeu uma visão que ordenava seu marido a lançar uma revista que levaria a verdade do advento ao rebanho que estava espalhado pela costa leste americana.

Tiago White publicou a primeira edição de sua revista em julho de 1849. Inspirado em 2 Pedro 1:12, chamou o periódico de “A Verdade Presente” (que hoje se transformou na “Adventist Review”). Os primeiros volumes foram dedicados ao estudo da Lei de Deus, especialmente o mandamento do sábado,[iii] ao estudo das 2.300 tardes e manhãs e a purificação do santuário,[iv] bem como para confirmar o dom de profecia manifesto em Ellen White.[v]

Esse conjunto das doutrinas distintivas dos adventistas sabatistas foi se consolidando com o passar dos anos, e é esse sistema que os pioneiros denominaram “grande e harmonioso sistema da verdade presente”.[vi]

Escrevendo sobre os temas da verdade presente em 1851, Ellen White declarou:

Há muitas verdades preciosas contidas na Palavra de Deus, mas é a “verdade presente” que o rebanho necessita agora. Tenho visto o perigo de os mensageiros se afastarem dos importantes pontos da verdade presente, para se demorarem em assuntos que não são de molde a unir o rebanho e santificar a alma. Satanás tirará disto toda vantagem possível para prejudicar a Causa. Mas assuntos como o santuário, em conexão com os 2.300 dias, os mandamentos de Deus e a fé de Jesus, são perfeitamente apropriados para esclarecer o passado movimento adventista e mostrar qual é nossa presente posição, estabelecer a fé do vacilante e dar a certeza do glorioso futuro. Esses, tenho frequentemente visto, são os principais assuntos sobre que os mensageiros se devem demorar.—Primeiros Escritos, p. 63

Ellen White reconhecia que, ao lado da verdade presente, também havia assuntos que não uniam o rebanho e nem santificavam a alma. Para não deixar dúvidas, ela citou uma a uma as principais colunas da verdade presente, onde os mensageiros deveriam se demorar.

Mais adiante, após a crise da Assembleia da Associação Geral de Mineápolis, Ellen White delimitou os marcos de nossa fé:

O passar do tempo em 1844 foi um período de grandes acontecimentos, expondo ao nosso admirado olhar a purificação do santuário que ocorre no Céu, e tendo clara relação com o povo de Deus na Terra, e com as mensagens do primeiro, do segundo e do terceiro anjo, desfraldando o estandarte em que havia a inscrição: “Os mandamentos de Deus e a fé de Jesus.” Um dos marcos desta mensagem era o templo de Deus, visto no Céu por Seu povo que ama a verdade, e a arca, que contém a lei de Deus. A luz do sábado do quarto mandamento lançava os seus fortes raios no caminho dos transgressores da lei de Deus. A não-imortalidade dos ímpios é um marco antigo. Não consigo lembrar-me de alguma outra coisa que possa ser colocado na categoria dos velhos marcos.—Eventos Finais, p. 44,45

Essa declaração foi escrita em 1889. Vamos entender o seu contexto. Na década de 1880, dois grupos debatiam o assunto da lei em Gálatas. Um dos partidos acusava o lado oposto de minar os “velhos marcos”, pois o lado oposto ensinava que a lei em Gálatas era a lei moral (e não a lei cerimonial). Ellen White estava preocupada porque alguns líderes estavam confundindo os “velhos marcos”, ou seja, a verdade presente, por assuntos que ela considerou ser de “importância secundária”. Foi por isso que ela delimitou quais os marcos fundamentais do adventismo.

Agora que você compreendeu o contexto histórico da expressão, façamos algumas reflexões sobre seu uso em nossos dias a fim de descobrir quem é o povo que pertence à “verdade presente”.

Ellen White escreveu que “entre os que aceitam a verdade presente há muitos cujas disposições e caráter necessitam de conversão”.[vii] Ao referir-se a esse grupo, ela está falando de adventistas do sétimo dia, ou de um grupo específico dentro da Igreja Adventista do Sétimo Dia? Quando ela escreve que “tem havido deficiência nesse sentido [reforma do vestuário] da parte dos pastores que creem na verdade presente”,[viii] Ellen White estava falando de pastores adventistas do sétimo dia, ou de uma classe de pastores mais conservadores entre os adventistas?

A. G. Daniells, que foi presidente da Associação Geral de 1901 a 1922, comia carne.[ix] Será que Ellen White o considerava um pastor da verdade presente? Não vamos encontrar nenhuma declaração dela dizendo que sim ou não. No entanto, é importante notar que em 9 de fevereiro de 1912, quando ela elaborou planos para a administração de seus escritos após sua morte, ela escolheu cinco homens para servirem, enquanto vivessem, como membros de uma permanente Comissão de Depositários responsáveis pelo cuidado de seus escritos. Entre esses estava Artur G. Daniells, então presidente da Associação Geral.[x] Será que ela teria escolhido o pastor A.G. Daniells para esta função tão importante se ele não pertencesse ao povo da verdade presente?

Será que esse sistema de doutrinas peculiares, que era considerado “verdade presente” para Ellen White e os pioneiros, é diferente nos dias de hoje? Será que para pertencer ao “povo da verdade presente” é preciso ser vegetariano, viver no campo, não ouvir músicas dançantes, usar somente a tradução da Bíblia King James (ou Almeida Corrigida Fiel), usar saias que medem 23 centímetros do chão ou educar filhos em casa em vez de enviá-los para escola? Com certeza o povo do advento será caracterizado pelo estilo de vida. Mas quem pode regulamentar e determinar os pequenos detalhes?

Por exemplo, Ellen White ensinou que não devemos tornar o assunto do vegetarianismo prova de discipulado.

Não nos compete fazer do uso da alimentação cárnea uma prova de comunhão (…). —Conselhos Sobre o Regime Alimentar, p. 404

Isso significa que uma pessoa pode ser batizada ainda comendo carne. Porém, o membro da igreja adventista do sétimo dia que ainda come carne é considerado pertencente à verdade presente? Qual seria a resposta de Ellen White? Não é possível encontrar uma declaração explícita onde ela afirme “sim” ou “não”. Entretanto, ao analisarmos a maneira como seus escritos trabalham essa expressão em centenas de citações, estamos convictos de que pertencer ao grupo da “verdade presente” significa ser um adventista do sétimo dia firmado na verdade da purificação do santuário celestial e estabelecido sobre as três mensagens angélicas. Isso não é garantia de salvação. Nunca foi e jamais será. Porém, consideramos um privilégio fazer parte desse povo escolhido por Deus, o qual adota um estilo de vida diferenciado e que, ao mesmo tempo, sabe respeitar as pequenas escolhas e peculiaridades do estilo de vida de cada um, sendo paciente com as lutas e decisões pessoais do próximo.

[i] The Seventh-day Adventist Encyclopedia, Review and Herald, 1996, ver “Present Truth”.

[ii] Tiago White, The Present Truth, v. 1, n. 1, julho de 1849, p. 1.

[iii] “A guarda do quarto mandamento é a mais importante verdade presente” Tiago White, The Present Truth, v. 1, n. 1, julho de 1849, p. 6.

[iv] Tiago White, The Present Truth, v. 1, n. 8, março de 1850, p. 59.

[v] “Os mandamentos de Deus e o testemunho de Jesus Cristo são para nós a verdade presente”. Tiago White, The Present Truth, v. 1, n. 5, dezembro de 1849, p. 34.

[vi] Uriah Smith, Valedictory, Review and Herald, 8 de junho de 1869, p. 188. Ver também: Leon A. Smith, Present Truth, Review and Herald, 6 de janeiro de 1891, p. 9; W. W. Prescott. The Symmetry of the Truth. General Conference Bulletin, 13 de fevereiro de 1895, p. 113.

[vii] Beneficência Social, p. 85.

[viii] Testemunhos para a Igreja, v. 6, p. 610.

[ix] Ronald L. Numbers. Prophetess of Health: A Study of Ellen G. White, 3º ed., 2008. p. 234.

[x] O testamento de Ellen White está disponível em: http://www.whiteestate.org/books/mol/Appendix%20N.html.

Por: Diego Silva e Thiago Stabanow


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